É na esperança de uma reestruturação que nos mantemos debaixo de chuva, à espera que de alguma forma ela nos limpe a alma. Sorrio quando penso que os rastos deixados pelo deslizar das gotas se fundem com a pureza que ainda me resta, debaixo de pele, envolta na medula em constante recalcificação.
Perco-me na simplicidade, escondo as lágrimas no temporal, encho peito de ar e dou o primeiro passo em direcção à enxurrada.
Já sinto o frio, já sinto os meus ossos a gelar à medida que a roupa que me reveste se começa a ensopar, sabe bem. Sabe bem sentir, mesmo que a sensação nos provoque dor, desconforto, arrepios ou até mesmo delírios. Sabe e pronto.
Continuo a caminhar debaixo do lacrimejar das nuvens que cai num compasso certo, ritmado, ping ping ping e de repente...encontro-me a escutar uma nova melodia, algo mais acelerado e acompanhado pelo ribombar dos trovões. Sabe ainda melhor e o pior, é que sei que saberá melhor quando me sentir nua, desprovida da proteção superficial que uso para esconder a minha fragilidade.
Já ouço o rodar da chave na fechadura, está a acabar, a seguir vem um espirro, aquela certeza de que os nossos pulmões também estão num estado de hipotermia suportável, dou um, dou outro e lá vem o raspanete de quem me espera... 
É tão bom andar debaixo de chuva...




É o chão...
É a corrente de ar que te arrepia...
É o começo e o recomeço de um plano que há muito tens traçado, para ti, de ti, para o mundo...
É a vivência que te falta, aquele calejar que te lembra o esforço que dispensaste...
É aquele bater de asas de borboletas dentro do teu estômago...
É o crescer sem nunca abandonar o mesmo espaço...
É a essência da tua vocação, canalizada nas tuas tentativas falhadas e concretizadas...
É a incerteza de um futuro que já é teu, à distância de uma oração vã...
É aquele encolher de dor que te faz lembrar que até na felicidade tem de haver dor para que a consigas valorizar...
São todas estas coisas que te fazem acordar, a ânsia de sentir, de viver, deixar de te privar de ser humana, de falhar, reescrever-te nas medidas erradas e retomar o apontamento certo...
Aprende a viver sem contagem, sem medida, dá o passo, acelera para travar antes que o embate te esmague e te faça virar do avesso. Não mostres a tua carne, fortalece a tua pele, não escames, hidrata-te, alimenta-te de boa gente, bons momentos e bons recomeços.





[Fictício - 12 de Outubro de 2015 - 00.54]


Olho para Ti, o reverso a minha moeda, o reflexo da minha insistente repulsa, desenrolo-te tal como novelo, fio por fio, fibra por fibra enquanto sinto a aspereza na minha pele nua.
Pertences aqui ainda que Te refaças incompleto na neblina que Te invade a mente.
Reduzo-Te a uma solução vítrea que me fere a carne e me escarnece a alma. 
Tornaste-Te no refluxo que me toma a boca, azedo, provo-Te como fel e ando a digerir-Te como mel.
Sucumbi..Shh...Deixa soar o zumbido, a interferência que me impede de olhar para trás e recordar.
Plastifica o som, diminui o volume, mistifica a melodia e canta, limpa a dor que Te percorre o corpo, deixa doer, electriza-Te e enfaixa-Te, compacta, remexe, encontra o Teu ponto na intermitência que Te rodeia, não Te ofereças como moeda de troca, não Te apagues, não Te rebaixes, mistura-Te.
Não Te quero assim...
Não quando o mundo é pequeno demais para Te tomar, não quando o ar é pesado demais para encheres os pulmões e gritar...mas não grites...é esse vibrar de tímpano que eu não quero sentir...não, não quero sentir esse arrepio nem ter vontade de agir.
Mato um, matei dois...não quero esse pesar...não Te quero...Quero-Te..Raios já disse que não quero...