É na esperança de uma reestruturação que nos mantemos debaixo de chuva, à espera que de alguma forma ela nos limpe a alma. Sorrio quando penso que os rastos deixados pelo deslizar das gotas se fundem com a pureza que ainda me resta, debaixo de pele, envolta na medula em constante recalcificação.
Perco-me na simplicidade, escondo as lágrimas no temporal, encho peito de ar e dou o primeiro passo em direcção à enxurrada.
Já sinto o frio, já sinto os meus ossos a gelar à medida que a roupa que me reveste se começa a ensopar, sabe bem. Sabe bem sentir, mesmo que a sensação nos provoque dor, desconforto, arrepios ou até mesmo delírios. Sabe e pronto.
Continuo a caminhar debaixo do lacrimejar das nuvens que cai num compasso certo, ritmado, ping ping ping e de repente...encontro-me a escutar uma nova melodia, algo mais acelerado e acompanhado pelo ribombar dos trovões. Sabe ainda melhor e o pior, é que sei que saberá melhor quando me sentir nua, desprovida da proteção superficial que uso para esconder a minha fragilidade.
Já ouço o rodar da chave na fechadura, está a acabar, a seguir vem um espirro, aquela certeza de que os nossos pulmões também estão num estado de hipotermia suportável, dou um, dou outro e lá vem o raspanete de quem me espera...
É tão bom andar debaixo de chuva...





