27 de Novembro 2013 00:25

*Fictício*

Do alto da tua amargura pelo antro de melgas que Te rodeia, eu consigo ver-Te quebrar enquanto imploras pelo meu toque, frívolo e áspero, estás a engolir em seco, sentes a culpa, atreves-Te a fazer-me frente mesmo depois de estares completamente arranhado, esventrado e rebentado, quem pensas que és?
Ainda há muito de mim em Ti, escrevinhado entre as linhas marcadas na pele pelos teus ossos, consegues ouvir-me dentro dessa nova redoma? Certamente não o conseguirás fazer, os teus olhos estão a perder-se por entre o embaciar do vidro, estás perdido, eu fiz-te perder o melhor de Ti, o melhor de mim e o melhor de nós, estás sedento de mudança, deambulando pelo espaço diminuto onde habita a tua alma, apetece-te sair?

É neste sopé desvirtuoso que me encho de Ti, reescrevo-Te nas ondas curvilíneas da montanha que conheceu o nosso amor, reencontro-Te em todas as viragens do caudal de água viva que me sacia esta sede de querer sem Te ter.
Ainda consigo mapear as imperfeições que o teu corpo me ensinou a desenhar, pela ponta dos dedos consigo traçar cada rascunho Teu, no embaçar do vidro, na areia desnivelada e no meu coração esmurrado, dói, tornar-me pedra por Ti, dói…ainda que aparente não mistificar a mudança de vida que instauraste ao desaparecer…
As estações vão passando e eu posso senti-las, mas não posso vê-las, tiraste-me o espelho do mundo, tal como me tiraste o espelho de mim mesma, de Ti, de nós…
Pudesse eu ver o céu e conseguir voltar a ver-te refletida no espelho que decorou a minha expressão enquanto havia tempo, partiste enquanto a minha vida se escureceu…Quem és tu? Como estás? Será que ainda te vão reconhecer quando já nem tu te consegues embonecar?

Estás a deixar sangrar, partiste o emoldurar do teu reflexo…Deixa sangrar, eu irei contigo, desta vez, não ficarei para trás…


Hoje é um dia triste, perdi uma das minhas melhores amigas e das mais antigas.
 No espaço de 1 ano já perdi 2 cães, para muita gente trata-se apenas de mais um ser vivo que vai e a resposta mais ouvida é sempre " Antes ele do que eu", mas para quem viveu diariamente e teve a honra de partilhar cada vitória ou derrota com eles sabe bem que além de ser um animal é também parte integrante de uma família, neste caso, da minha família.
O argumento da velhice não chega para que o nosso coração aceite que aquela pestinha que nos tende a chatear ou sujar porque simplesmente espera que brinques com ela ou lhe ofereças a mão para receber mimo não vai voltar, não a vamos voltar a ver, não vamos poder tocar, cheirar, acarinhar.
Faz falta, mói-nos os ossos, o coração, corrói a alma.
É mais um pedaço de Ti que vai, como tantos outros que a vida, injustamente, te vai tirar.
É também nestas alturas que começamos a reviver na nossa cabeça cada momento em que estiveram lá para nos apoiar, sem palavras, sem julgamentos, só com uma pata para "cutucar" ou um aconchego para nos fazer sentir melhor.
Dói, queremos acreditar que deixam de sofrer ou que vão para um lugar melhor, mas na realidade queríamos era que ficassem mais um pouco, talvez para sempre.
Estimem os vossos animais, não os tomem por garantidos e acima de tudo aproveitem até ao último dia para retribuir cada feito, cada gesto, cada abanar de cauda com que vos presentear simplesmente porque vos viram porque eles não precisam de muito, não pedem muito, não exigem nada, mas merecem tudo o que seja possível dar-lhes.

"You'll always be in my heart"