Não é a ausência que mata,mas sim a ressaca das porosidades da pele que se habituaram àquela sensação de permanência que transbordava pelo toque inocente entre dois corpos.
Não serás capaz de esquecer-me quando até os meus ossos se cravaram nas tuas simetrias, somos metade de um todo, revirado, atirado contra a parede e milhares de vezes despedaçado.
Eu não quero esquecer, não posso, reescrevi-te nas minhas veias, corres lá, misturas-te como o meu sangue, alimentas as minhas incertezas, refazes as minhas dúvidas e reencontras as minhas falhas.
Sei de antemão que me vais virar a cara quando passares por mim, não quero que mudes a tua atitude pelo menos enquanto estás a descobrir como é suposto sobreviveres sem uma das tuas asas.
Não, não quero que me vejas enquanto estiver desfolhada e indefesa, não posso deixar que vejas através de mim, não agora que comecei a colorir o meu reflexo.
Vejo-me no teu olhar mesmo quando não me olhas, estou aprisionada nesse espaço, confinada a um recanto da tua mente, ainda que teimes em passar a borracha eu sei que sou permanente e isso dói.
Quantas vezes pensaste que poderias riscar-me da tua vida? Quantas vezes o fizeste sem querer saber se irias rasgar a minha pele? Eu sei, contei-as, cicatrizei-as sobre o meu coração, mas não te deixei ver, não queria que a culpa te abarcasse apesar de sentir que precisavas senti-la pelo menos para ganhares consciência dos teus erros.
Ainda consigo imaginar-me a rodopiar nas tuas mãos, apertada num abraço reconfortante que me aqueceria a alma. Lembraste de como prezavas a minha alma? Aquela réstia de humanidade e inocência que vias através da minha tristeza? Está intacta, é o que resta do todo que se fez em quase nada, posso garantir-te que a expiro a cada boa acção, a cada gesto humano que ainda consigo praticar, mas de que me serve se o meu corpo continua a exteriorizar o cansaço provocado pela procura de outros corpos que encaixem ou desmarquem a tua essência.
Perdi-me na minha história e misturei-a com a tua, quer dizer, a nossa, e agora não me resta nada a não ser o miolo de uma carcaça que deambula e migalha a vida dos outros.
Estou viva, retomo a minha estrada, dia após dia, mas nunca me esqueço de olhar para trás.
Espero o aceno, o sorriso ou aquele abraço que faz pensar que está tudo bem quando na realidade não está, não quero reflectir mais, quero adormecer, sonhar, transpor a realidade e viajar no tempo.
Ser a pureza do teu mundo e a incerteza das frustrações, voltar, recomeçar e despedaçar, só desta vez, despedaçar.

Opinião - Eleanor & Park de Rainbow Rowell

Boa Noite Novelitos :)

Hoje é dia de Opinião!

Emaranhado de palavras


Edição/reimpressão: 2015
Páginas: 336
Editor: Edições Chá das Cinco
ISBN: 9789897101229


Sinopse
Dois inadaptados. Um amor extraordinário.

Eleanor... é uma miúda nova na escola, vinda de outra cidade. A sua vida familiar é um caos; sendo roliça e ruiva, e com a sua forma estranha de vestir, atrai a atenção de todos em seu redor, nem sempre pelos melhores motivos.
Park... é um rapaz meio coreano. Não é propriamente popular, mas vestido de negro e sempre isolado nos seus fones e livros, conseguiu tornar-se invisível. Tudo começa a mudar quando Park aceita que Eleanor se sente ao seu lado no autocarro da escola.
A princípio nem sequer se falam, mas pouco a pouco nasce uma genuína relação de amizade e cumplicidade que mudará as suas vidas. E contra o mundo, o amor aparece. Porque o amor é um superpoder.
Críticas de imprensa
«Divertido, cheio de esperança, sensual e verdadeiramente de levar às lágrimas, este romance irá conquistar adultos e jovens.»
Kirkus Review


Outras Críticas
«Nunca vi nada como Eleanor & Park. É uma belíssima história de amor. Relembrou-me o que é ser jovem e apaixonado por uma rapariga, mas também ser jovem e apaixonado por um livro.»
John Green, autor de A Culpa é das Estrelas


Sobre a autora



Rainbow Rowell vive em Omaha, Nebrasca, com o marido e os dois filhos.
Por vezes escreve sobre os adultos, e outras vezes sobre jovens, mas aborda sempre pessoas tagarelas, que erram e fazem asneiras e que se apaixonam. Quando não está a escrever, Rainbow lê banda desenhada, planeia viagens ao Disney World, e argumenta sobre coisas que na verdade não são muito relevantes no grande esquema do mundo







Opinião

Eleanor & Park foi um livro que constantemente me foi conquistando e perdendo à medida que avançava na leitura.
Gostava de vos dizer que amei, que não há outro igual e que o recomendo fervorosamente, no entanto, não estaria a ser correcta comigo mesma e muito menos com vocês.
Este livro é sem dúvida um livro direccionado para um público mais juvenil mas ao mesmo tempo torna-se apetecível para os adultos, tudo nele atrai o nosso olhar e aguça a nossa curiosidade o que faz com que não consigamos resistir à vontade de o folhear.
Há inúmeros aspectos positivos a apontar-lhe, o romance é doce e vai florescendo à medida que vamos acompanhando a vida diária dos personagens, não há pressa, não há porque estar a acelerar algo que pode ser desfrutado de uma forma tão doce e fofinha, sim, o romance é a coisinha mais fofa que li nos últimos anos, cheio de pequenos gestos tímidos e arrebatadores que nos derretem à medida que vai avançando; a banda sonora torna-se parte de um todo, há uma ação simbiótica entre a relação dos personagens e a partilha de várias faixas musicais (dos anos 80, sem dúvida a melhor década a nível musical) o que acaba por permitir que o leitor mais juvenil tenha acesso a grandes clássicos da música internacional de modo a enriquecer o sua cultura.
Seria tudo perfeito, não fossem as lacunas que se encontram no enredo. Há uma série de coisas e acontecimentos que ficam a pairar, não se sabe como se vão desenrolar, não se sabe se alguma vez vão ter uma meta e muito menos se sabe porque é que estão ali.
Ora atentem no tema do Bullying, a autora fez um grande alarido, a meu ver necessário, em torno deste tema e das passagens em que a Eleanor sofria com esta realidade, no entanto, ficamos por aí, não houve um desfecho, os culpados não são apontados, não são punidos e o tema perde a sua essência.
Outro tema mal explorado é a violência doméstica, no livro é-nos apresentado um padrasto inútil, constantemente embriagado, rancoroso, violento e uma mãe submissa, sempre a viver com medo das reações do seu companheiro, mas não vemos qualquer atitude perante esta situação, aliás, continuo sem perceber como é que pode ter terminado o livro sem nos explicar o que aconteceu àquela família.
Sinceramente acho que a autora tanto quis fazer que acabou por deixar demasiados espaços em branco no seu enredo, preocupou-se com o romance (o que não é de todo negativo), mas deixou-se levar por ele e acabou por ir esbatendo temas que poderiam ter sido melhor explorados, resolvidos e apresentados ao leitor. Creio que seria mais interessante para jovens e adultos ver uma abordagem mais séria e conclusiva em relação aos dois temas que mencionei acima porque se pensarmos bem  milhares de crianças, homens e mulheres sofrem desses problemas e raramente vemos isso retratado em livros direccionados para o público mais jovem, penso que poderia ser visto como um suporte ou como uma apresentação às claras destes terrores que estão cada vez mais presentes na nossa sociedade.
Eleanor & Park é um livro de amor, carinho, diferença e lealdade cheio de pequenas surpresas e detalhes que nos fazem apaixonar pelos seus personagens principais, no entanto, merecia mais do que este final e muito mais tempo e páginas para que a cada problema fosse dada a devida solução.



Para finalizar cá fica a banda sonora :p





Tem calma, respira, conta até 3,4 ou 10, mas respira. Retorna à calma, escuta, levanta-te, ergue o queixo, não desistas, vive...
Vive porque o essencial é manter o corpo em compassado movimento, enquanto o fizeres pode ser que consigas fingir que não o ouves, ritmado, estridente, pequenino como se fosse um pássaro que cabe na palma da mão, na minha mão.
Sabes o que queres? Calá-lo, mas já pensaste no sufoco que seria querer respirar e não conseguir, querer sentir e não detectar a oscilação do pêndulo que te torna humana?
Pois, é essa angústia que te faz pensar e ver que talvez ser assim tão frágil não te torna mais fraca do que eles, mas ainda maior, um mal menor que floresce num bem superior ainda que não  o consigas ver hoje, nem amanhã, talvez nem se torne perceptível até o dia em que já não podes mais acordar. Vais jazer, entorpecida pela electricidade que rompe o batimento, te imobiliza e te faz sair do teu próprio corpo para um lugar ascendente, nunca descendente, não te penses merecedora de tal infortúnio e se por algum motivo afundares, lembra-te que me podes sempre convidar para comer um churrasco lá nas terras de sabe lá quem.
 És mais do que eles pensam e muito mais do que dizem, Tu és Tu e ninguém te pode tirar a ti mesma, não o permitas, bate o pé, esperneia, riposta e suporta porque ninguém pode ter o poder de te destronar.
Sorri, mostra a tua glória mesmo nos dias que a escuridão te cegue para o mundo, sorri, ilumina a vida de alguém, faz de ti um farol, uma luz guia que atrai quem teme sair do nevoeiro.
Não te ofendas quando te chamam de esquisita, ser esquisita é bom, destacaste e invejam-te, pensa que é melhor parecer deslocada do que ser um clone social vazio.
Recomeça do ponto em que paraste a tua vida, resume-a aos momentos que realmente valeram a pena e não desperdices o tempo que te resta com a imundice que te feriu, sara-te, espera que cicatrizes antes de permitir que alguém te volte a tentar arranhar.
Mantém-te firme, atenta, de cabeça no sítio e motivação no coração, procura quem te ama, quem te adora e quem faz de tudo para te manter fiel a ti mesma quando pensas que não és digna de te misturar com o resto do mundo, faz melhor, torna-te heterogénea em relação a ele, permite-te ser quem queres, como queres e partilha-o com quem é de bem porque o que é de mal vai-te enjoar, vai-te enojar e ainda pior, vai-te contaminar se não souberes onde tens de parar.
Não pares na encruzilhada, segue o teu instinto, não te percas e se te perderes descansa, alguém te vem buscar porque enquanto fores amada ou desejada vai haver quem lute pela tua presença.
Faz-te alguém, por ti e não por mais ninguém, convive, mas não te refaças, molda-te, mas não percas a tua forma, mantém única, persistente, mas acima de tudo HUMANA.