É neste fio da navalha que retomo a minha ode, presa na corda bamba de uma dimensão que não é minha.
Restauro as minhas forças, levanto as minhas muralhas, equilibro, páro, recomeço, cambaleio e vou dançando na fragilidade do meu corpo cansado.
É tarde, eu sei, mas tinha de ser, é esta capacidade infrutífera de deixar deslizar a areia por entre os dedos que me mantém aqui, de frente, enfrentando a passagem interminável de névoas sem rosto que vai desgastando a rede de protecção que me impede de deslizar com os grãos de areia.
Teimo em respirar, em libertar suspiros e agonias que me tornam humana, penetrável e visível ainda que eu não o queira.
Preciso de uma nova desculpa para permanecer equilibrada na pedra que carrego no peito enquanto assisto a mais um capitulo repetido.
Sou o que quero ser, não o que pensam puder ver, mascaro-me na minha solidão e na mágoa que até hoje não me deixaram ficar mal, antes pelo contrário, salvaram de falhas que podiam ser mortais, não para o corpo, mas para a alma.
Pé ante pé vou caminhando, a medo, com o tremelicar da musculatura quase inexistente, sou forte demais quando estou no escuro, debaixo do holofote encolho-me como se cada poro se contorcesse com a alergia provocada pelo olhar, pelo toque ou pelo som que se aproxima das minhas terminações nervosas.
Tento manter a postura, cabeça erguida, nariz no ar, altiva, inalcansável, mas acabo por sentir cada esfarelar da minha máscara.
Não consigo andar de peito aberto quando há tão pouco para guardar lá dentro, não consigo ser transparente quando me sinto tão negra que me começo a confundir com a minha própria sombra, mas também não vou deixar que me voltem a ver cair e engane-se quem pagou o bilhete para me ver escorregar e morrer no meio da arena, não vou sem luta nem permito que me obriguem a dar o passo para o cadafalso.


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